Celso Monteiro Furtado

FILIAÇÃO:
Maurício de Medeiros Furtado e Maria Alice Monteiro

ANTES DA GUERRA

Deixou o Nordeste rumo ao Rio de Janeiro aos 19 anos. Na cidade carioca cursou Direito, atuou como jornalista escrevendo para a “Revista da Semana” e tornou-se funcionário público como servidor do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP).
Quatro anos depois, em 1944, foi convocado para fazer parte da Força Expedicionária Brasileira (FEB), após ter cursado o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) do Rio de Janeiro.
A convocação para aquele acontecimento que, por diversas perspectivas foi entendida e publicizada como uma missão cívica e patriótica, significava para Celso, com 23 anos, uma forma de movimentar seu cotidiano e ao mesmo tempo se destacar em meio à multidão.
Em carta escrita antes da viagem ao front e publicada no livro “Anos de Formação – 1938-1948: o jornalista, o serviço público, a guerra, o doutorado”, organizado pela jornalista, editora, tradutora literária e também sua companheira de décadas, Rosa Freire d’Aguiar, deixou claro sua percepção do peso da guerra para representação de sua própria imagem ao dizer que “passava a ser desde aquele momento não mais um número dentro da multidão, um empregado público, um simples, uma caricatura da parte de baixo da classe média”. Participar do conflito global, portanto, segundo suas palavras, “transplantava-o para um plano heroico da vida”, em função “do simples fato de que sua vida estava em jogo”.

 

DURANTE A GUERRA
O recém-formado aspirante a oficial da Infantaria foi designado, em função da fluência na língua inglesa, responsável pela comunicação entre militares nacionais e estadunidenses, função que exerceu ainda em terras brasileiras e manteve no território italiano, onde desembarcou ao sul, na cidade de Nápoles, no mês de fevereiro de 1945, em meio à contagem regressiva para a derrota das tropas do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).
Era oficial de ligação com o 5º Exército dos Estados Unidos, destacamento ao qual a FEB estava subordinada. Além do ofício de tradutor, também tinha a responsabilidade de dirigir comboios de tropas em áreas conflagradas, responsabilidade relativamente de risco que o possibilitou presenciar uma série de situações do cotidiano da guerra, algumas tensas, apesar de não ter participado efetivamente de combate.
Em textos escritos no calor do momento, a maioria cartas destinadas à família, discorria sobre a importância da luta contra o fascismo, porém ressaltava a sensação diminuta que sentia em relação a si próprio e a participação da FEB no conflito. Notava nos soldados inimigos a exaustão da percepção da derrota iminente e percebia, comparando tropas brasileiras e norte-americanas, como na segunda o processo de segregação racial apresentava-se de forma muito mais visível.
O fato de ter chegado à Europa já em contagem regressiva para o fim da 2ª Guerra Mundial possibilitou ao tenente de Infantaria R2 Furtado, à medida que avançavam as tropas Aliadas (EUA, URSS e Inglaterra) das quais fazia parte, conhecer diversas cidades, em diferentes regiões da Itália. Esse trânsito caminhou ao lado da arguta percepção de elementos múltiplos que compunham não apenas os cenários físicos, mas sociais e humanos daquele continente esmigalhado tanto pelas batalhas quanto pelo modo de viver fascista que durou um quarto de século.

 

APÓS A GUERRA
O imediato pós-guerra
Celso Furtado apresentou ao público os elementos de suas incursões na Velha Bota, ainda em 1945, na primeira palestra apresentada por ele, em solo nacional, sobre a sua participação na 2ª Guerra Mundial. Rosa Freire d’Aguiar ressaltou que o primeiro local escolhido para apresentar seu texto foi João Pessoa, capital do estado onde havia nascido. Essa palestra também consta entre os textos publicados no livro Anos de Formação – 1938-1948: o jornalista, o serviço público, a guerra, o doutorado, cujo título aparece como “O tenente na Paraíba”.
No escrito de apresentação, o oficial de guerra relatou os efeitos das batalhas na cidade de Nápoles, onde desembarcou juntamente com milhares de outros expedicionários, ao ver “o espetáculo das crianças abandonadas, a multidão de vadios, as ruas emporcalhadas”, que “pareciam anunciar uma nação esfacelada e uma sociedade em alto grau de decomposição”.
Sobre os efeitos do fascismo na sociedade italiana, relatou que só ficou mais perceptível identificá-los após “a libertação do norte da Itália”, região mais rica do país. Ao adentrar nessa parte do território italiano, percebia com maior nitidez “como um sistema de arbítrio e irresponsabilidade de governo tende a corromper completamente um povo”. A partir dessa conclusão, ressaltou os efeitos fascistas sobre “a classe média”, parcela da sociedade “provavelmente mais sacrificada pelo regime e pela guerra”, quando afirmou ter percebido “um quadro triste onde dominavam a exploração mútua, a passividade política e a ausência de padrões de moralidade”. A consequência disso, para ele, era a indiferença em face “à grande tragédia, como acontecimento nacional, e nenhuma consciência de culpa ou revolta”. E concluiu: “O Estado Fascista – pareceu-me – anulou-lhe o senso de responsabilidade com a coisa pública”. Já entre os vitoriosos, “os partisanos”, força de resistência ao sistema comandado pelo ditador Mussolini, ressaltou que “o denominador comum era ódio”, segundo suas palavras, “força primitiva que o fascismo desencadeara nas suas almas”. Esses elementos, para o futuro economista, produziam efeitos nefastos naquela sociedade e, mais do que isso, atravancavam qualquer projeto de reconstrução.
Em contrapartida, destacou que, apesar dos 25 anos de regime autoritário ter afetado culturalmente e socialmente, a Itália tinha 25 séculos de idade, de modo que, em profundidade, muito da formação cultural da população havia se mantido. “Uma florista ou um negociante de vinho discute sobre valores da pintura italiana e dá informações que nós costumamos colher com os eruditos”.
Citou uma série de lugares os quais teve a oportunidade de visitar nos momentos de folga, à medida que a 2ª Guerra Mundial ia finalizando. Cidades como Florença, Roma, Pompeia, Milão. Sempre atento aos aspectos históricos, geográficos, culturais e sociais, privilegiando, sobretudo, as relações humanas. “Essa experiência me convenceu de que a maneira mais direta de penetrar no espírito da cultura é pelo contato com as pessoas que nelas estão integradas”.
Ainda em terras paraibanas, além da palestra, ele também começou a escrever o livro de contos que seria publicado sob o título, de Nápoles a Paris: contos da vida
expedicionária. Nele Furtado escreveu dez histórias, com personagens e assuntos cotidianos daquele universo de guerra, tendo sempre como narrador um Tenente, assim como ele.
Sobre o assunto, Rosa Freire, embora reconheça desconhecer o motivo de Celso Furtado ter escolhido o formato ficcional para expressar-se naquele momento, apontou: “Ele volta, a imaginação borbulhante, tinha vinte e poucos anos e resolve passar aquilo para ficção. Celso volta da guerra em setembro de 45, chega ao Rio de Janeiro e no mês seguinte, em outubro, vai para Paraíba. E lá ele então tem, digamos, duas falas. A palestra em João Pessoa e os contos que ele escreve em Brejo da Cruz”.
A guerra com o passar do tempo
Enquanto no imediato pós-guerra Celso Furtado apresentou essas iniciativas, narrando suas experiências como oficial, anos depois ele se afastaria de relações mais próximas com as Forças Armadas em função da ditadura, implementada no Brasil a partir de 1964. A respeito desse assunto, Rosa Freire relembrou que “como o Celso foi cassado pelo Golpe de 64, e o golpe foi fundamentalmente militar, ele não tinha e nem queria ter muito contato com os militares”. Além disso, tinha o fato de que o General Castelo Branco, honrado como um herói da FEB, havia sido figura principal nos eventos que depuseram o presidente João Goulart.
Ela informou, porém, que com o final da ditadura ele passou a ter alguma relação com alguns daqueles que participaram da FEB, “não os praças, mas os aspirantes a oficiais e oficiais”. “Foi só a partir dos anos 80, talvez, que ele voltou a ter contato com ex-combatentes civis; um engenheiro, outro médico, que se reuniam uma vez por ano num almoço ou num jantar, eu cheguei a ir a alguns. E era curioso ver todos eles. Eles falavam pouco da guerra, falavam mais do que tinham feito depois da guerra”.
Essa característica do tema 2ª Guerra Mundial não ser prioritário entre os assuntos furtadianos era mantida também nas conversas entre Celso e Rosa. Ela conta que eles falavam sobre, porém “não era um assunto de preferência. Ele jamais disse, ‘ah, eu fui à guerra’. Ele achava que foi porque naquele momento era sua obrigação. Embora tivesse feito Tiro de Guerra, como se chamava, aos dezoito anos, quando o Brasil declara guerra em 42 ele tinha 22 anos, estava, portanto, na idade de ser convocado. E foi”.
É o economista brasileiro mais reconhecido no mundo. Intelectual versátil, não se limitava a receitas numérico-matemáticas para questões econômicas que se apresentavam muito mais profundas e complexas, cujas análises deveriam atentar para as dimensões diversas da vida humana, de forma inter e multidisciplinar, procurando entender a economia em relação aos aspectos históricos, sociológicos, antropológicos, geográficos.
Tal característica de sua obra deve-se, em vários sentidos, às suas próprias vivências, seus trânsitos e contatos com pessoas e lugares. Um desses locais, que atravessou a vida do ainda jovem Celso, foi a Itália, em circunstâncias das mais hostis. Era a 2ª Guerra Mundial que assombrava o planeta.

 

MEDALHAS E CONDECORAÇÕES

  • Medalha de Campanha
  • Medalha de Guerra
  • Membro Honorário do IV Corpo de Exército (EUA)

– Texto de autoria de Antonio Odon da Silva Neto e Rosa Freire d’Aguiar.

 

CRÉDITOS
Museu Virtual da FEB